Por Luciano Machado
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Para quem não conheceu o bar do Cabellito, ficava ali em frente ao Parque Internacional e era o local de encontro de boêmios e jogadores desta mui valorosa “Fronteira da Paz”.
O episódio a seguir aconteceu na década de 50, quando esta fronteira ainda era o palco da vida noturna, envolvendo toda uma variedade de espetáculos singulares. Era por assim dizer um centro de prazeres e atrações que fazia destas duas cidades, Sant’ Ana do Livramento e Rivera, unidas e irmanadas, o melhor lugar do mundo, sem nada dever a Paris, Nova Iorque, Montevidéu, Porto Alegre, São Paulo, Rio e Buenos Aires, mesmo porque, em suas casas noturnas, vivia-se o mesmo clima dos centros acima mencionados.Quem quisesse assistir a um espetáculo de dança, a um bom filme, conhecer mulheres e artistas famosos, cear um prato do mais requintado cardápio europeu, era só dirigir-se ao local apropriado. E havia muitos.
Dentre as boates de Livramento e Rivera: o Piano Drink Bar, o Danúbio Azul, o Chalé Verde, o Mirador Fronteiriço, a Peggi, o Refúgio e o Farolito; dentre os cinemas poderíamos citar o Cine-Teatro América, o Cine-Teatro Colombo, o Rex, o Astral, o Avenida e o Internacional. Na área de restaurantes e cafés noturnos, o Ponto Chic, o Bar e Churrascaria do Antoninho, o Bar Pingüim, a Gruta Azul, o Marabá, o Bar Europa, o Café Tupinambá, o Palacinho, o já citado Cabellito, o Bar e Café Rio Branco, o Restaurante Pedrinho, o Bar Americano, a Confeitaria City, a Confeitaria Metropolitana, El Rancho Churrasqueria, La Cueva (também denominada La Picada de Los Buenos), Los Barrillitos (todos os móveis imitavam barris de diferentes tamanhos), o Café Tronio e a lancheria e restaurante Sabó.
Dos antigos cafés tradicionais desta fronteira, resta-nos apenas, em Rivera, a City e o Bar Americano que felizmente ainda conservam o seu bom atendimento.
Mas voltemos a Livramento e entremos no bar do Cabellito. Sentados a uma mesa estão os dois Biras (o Bira grande e o Bira pequeno, ambos lutadores de luta livre e boxe, respectivamente), o Michel (bem sucedido vendedor de pianos, mas infelizmente jogador) e o Tonico, famosos notívagos, e o musculoso Lon Chaney ,o popular Loncha, lutador de boxe. Todos os cinco acabavam de chegar no Cabellito, famintos e sem dinheiro, com exceção do Michel, que tinha o suficiente para um carreteiro. Mas nessa irmandade, ou todos comem ou ninguém. De modo que se dirigiram ao restaurante Pedrinho e pediram um carreteiro e cinco garfos. Eram seis horas da manhã.
Enquanto aguardavam o carreteiro, o garçom Lima lhes trouxe uma travessa com fatias de pão. Quinze fatias. O pão os alegrou. Cabiam de direito três fatias a cada um. Mas o bom era comer o pão com o carreteiro. E assim aguardavam a vinda do grande prato comum aos cinco, quando o Lon Chaney, que era completamente calvo, apoderou-se da travessa de pães e enfrentou os olhares dos companheiros,enquanto os ia esfregando,fatia por fatia, na sua gordurosa careca. O Bira grande quis intervir, mas Lon Chaney puxou a travessa e falou:
-- Calma, Bira. Somos cinco. Temos direito a um carreteiro e cinco garfos. Quem paga o carreteiro é o Michel. Eu entro com a manteiga. Mas como vocês não gostam da minha manteiga, e o Michel não gosta de pão, eu como sozinho as quinze fatias.
Olhando-o por cima dos óculos, por detrás do seu bigode grisalho e de sua experiência de notívago, Michel concluiu:
-- Ok, Loncha, já nos encantaste com a tua pilhéria de fim de noite. Agora vamos comer o nosso carreteiro e nos mandar, porque o sol vem vindo aí e pode prejudicar a nossa delicada pele ...
Luciano Machado (Do seu livro O Imperador da Noite)
Para quem não conheceu o bar do Cabellito, ficava ali em frente ao Parque Internacional e era o local de encontro de boêmios e jogadores desta mui valorosa “Fronteira da Paz”.
O episódio a seguir aconteceu na década de 50, quando esta fronteira ainda era o palco da vida noturna, envolvendo toda uma variedade de espetáculos singulares. Era por assim dizer um centro de prazeres e atrações que fazia destas duas cidades, Sant’ Ana do Livramento e Rivera, unidas e irmanadas, o melhor lugar do mundo, sem nada dever a Paris, Nova Iorque, Montevidéu, Porto Alegre, São Paulo, Rio e Buenos Aires, mesmo porque, em suas casas noturnas, vivia-se o mesmo clima dos centros acima mencionados.Quem quisesse assistir a um espetáculo de dança, a um bom filme, conhecer mulheres e artistas famosos, cear um prato do mais requintado cardápio europeu, era só dirigir-se ao local apropriado. E havia muitos.
Dentre as boates de Livramento e Rivera: o Piano Drink Bar, o Danúbio Azul, o Chalé Verde, o Mirador Fronteiriço, a Peggi, o Refúgio e o Farolito; dentre os cinemas poderíamos citar o Cine-Teatro América, o Cine-Teatro Colombo, o Rex, o Astral, o Avenida e o Internacional. Na área de restaurantes e cafés noturnos, o Ponto Chic, o Bar e Churrascaria do Antoninho, o Bar Pingüim, a Gruta Azul, o Marabá, o Bar Europa, o Café Tupinambá, o Palacinho, o já citado Cabellito, o Bar e Café Rio Branco, o Restaurante Pedrinho, o Bar Americano, a Confeitaria City, a Confeitaria Metropolitana, El Rancho Churrasqueria, La Cueva (também denominada La Picada de Los Buenos), Los Barrillitos (todos os móveis imitavam barris de diferentes tamanhos), o Café Tronio e a lancheria e restaurante Sabó.
Dos antigos cafés tradicionais desta fronteira, resta-nos apenas, em Rivera, a City e o Bar Americano que felizmente ainda conservam o seu bom atendimento.
Mas voltemos a Livramento e entremos no bar do Cabellito. Sentados a uma mesa estão os dois Biras (o Bira grande e o Bira pequeno, ambos lutadores de luta livre e boxe, respectivamente), o Michel (bem sucedido vendedor de pianos, mas infelizmente jogador) e o Tonico, famosos notívagos, e o musculoso Lon Chaney ,o popular Loncha, lutador de boxe. Todos os cinco acabavam de chegar no Cabellito, famintos e sem dinheiro, com exceção do Michel, que tinha o suficiente para um carreteiro. Mas nessa irmandade, ou todos comem ou ninguém. De modo que se dirigiram ao restaurante Pedrinho e pediram um carreteiro e cinco garfos. Eram seis horas da manhã.
Enquanto aguardavam o carreteiro, o garçom Lima lhes trouxe uma travessa com fatias de pão. Quinze fatias. O pão os alegrou. Cabiam de direito três fatias a cada um. Mas o bom era comer o pão com o carreteiro. E assim aguardavam a vinda do grande prato comum aos cinco, quando o Lon Chaney, que era completamente calvo, apoderou-se da travessa de pães e enfrentou os olhares dos companheiros,enquanto os ia esfregando,fatia por fatia, na sua gordurosa careca. O Bira grande quis intervir, mas Lon Chaney puxou a travessa e falou:
-- Calma, Bira. Somos cinco. Temos direito a um carreteiro e cinco garfos. Quem paga o carreteiro é o Michel. Eu entro com a manteiga. Mas como vocês não gostam da minha manteiga, e o Michel não gosta de pão, eu como sozinho as quinze fatias.
Olhando-o por cima dos óculos, por detrás do seu bigode grisalho e de sua experiência de notívago, Michel concluiu:
-- Ok, Loncha, já nos encantaste com a tua pilhéria de fim de noite. Agora vamos comer o nosso carreteiro e nos mandar, porque o sol vem vindo aí e pode prejudicar a nossa delicada pele ...
Luciano Machado (Do seu livro O Imperador da Noite)
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